
Por Andréa Antinoro | Selos Consultoria
Uma empresa implanta um sistema de gestão. Os cadastros estão ativos, os módulos funcionam e os relatórios são gerados. Meses depois, a reunião de resultados ainda começa com alguém abrindo uma planilha paralela para explicar por que os números não coincidem.
O problema pode estar menos na quantidade de tecnologia disponível e mais na distância entre o sistema e o modo como a empresa trabalha. O ERP registra transações, mas decisões, exceções e conferências continuam circulando fora dele. Nesse intervalo surgem retrabalho, versões diferentes da mesma informação e uma pergunta difícil para a liderança: em qual número confiar?
O que o ERP precisa representar
Um sistema de Planejamento de Recursos Empresariais, ou ERP, integra registros de diferentes áreas. Essa integração só se torna útil para a gestão quando há acordo sobre o significado dos dados e sobre o percurso que eles fazem até uma decisão.
Considere um contrato de serviços. A área comercial registra o valor vendido. A equipe técnica informa quanto foi executado. O financeiro acompanha faturamento e recebimento. A liderança quer saber margem, prazo e risco de atraso. Esses números se relacionam, mas não significam a mesma coisa.
Se a organização não definiu quem atualiza cada informação, em que momento isso ocorre e quais regras tratam alterações no contrato, um painel pode reunir dados sem produzir uma leitura confiável. Ele apenas apresenta a divergência de forma mais elegante.
Por isso, antes de pedir uma nova funcionalidade, vale examinar o caminho da informação. Onde o dado nasce? Quem o confere? Qual regra o transforma em indicador? Quem recebe um alerta quando ele foge do esperado? E qual decisão deve ser tomada a partir daí?
Onde o low code entra nessa conversa
Low code é uma forma de desenvolver aplicações com recursos visuais e componentes reutilizáveis, reduzindo a necessidade de programação tradicional em parte do trabalho. Sua contribuição potencial para a gestão vai além da rapidez com que uma tela pode ser criada.
Uma pessoa que executa o processo geralmente conhece exceções que não aparecem no desenho formal. Sabe em que momento um cliente muda o pedido, por que uma aprovação atrasa e qual informação a equipe procura antes de liberar uma entrega. Quando esse conhecimento participa do desenvolvimento da solução, a tecnologia pode se aproximar da operação real.
Isso não significa que cada área deva criar aplicativos isolados. Sem regras comuns, permissões definidas e integração com os sistemas existentes, a empresa corre o risco de construir novas ilhas de informação. A participação da operação precisa ocorrer dentro de uma arquitetura de dados e de uma responsabilidade de gestão claras.
Em pesquisa que desenvolvi sobre low code aplicado ao ERP, analisei essa aproximação entre conhecimento do negócio e desenvolvimento tecnológico. A literatura aponta uma oportunidade de aprendizagem organizacional: formular um problema, testar uma solução com quem trabalha no fluxo, observar os desvios e ajustar o sistema. Na prática, o efeito de cada solução deve ser acompanhado com indicadores definidos para o processo em questão.
A experiência da Selos na implantação e integração de sistemas
Na consultoria, a Selos acompanha projetos de implantação de ERP e de soluções low code desde a leitura dos processos até a incorporação do sistema à rotina. Esse acompanhamento expõe uma dificuldade recorrente: a equipe de desenvolvimento recebe uma demanda descrita em termos de telas e funcionalidades, enquanto a equipe operacional conhece o problema por meio de exceções, atrasos e decisões que precisam tomar todos os dias. Sem uma tradução entre essas perspectivas, ambas podem trabalhar com empenho e ainda entregar uma solução distante do uso real.
Nosso papel é aproximar essas equipes. A Selos ajuda a mapear o fluxo de trabalho, explicitar regras de negócio, definir indicadores e transformar necessidades operacionais em requisitos que possam ser desenvolvidos e testados. Durante a implantação, acompanhamos a validação com usuários, as divergências entre módulos e os ajustes necessários para que a informação percorra a empresa com menos interrupções.
Essa integração também é uma estratégia de gestão de pessoas. Quando profissionais da operação participam da definição do problema e conseguem reconhecer suas contribuições na solução, a mudança deixa de chegar apenas como uma obrigação técnica. Há mais espaço para aprender, apontar falhas e assumir responsabilidade pelo uso correto dos dados. Eficiência e engajamento são objetivos desse trabalho conjunto; precisam ser acompanhados por indicadores e pela experiência das equipes, em vez de presumidos a partir da instalação do sistema.
Por isso, avaliamos tanto o funcionamento da ferramenta quanto a forma como ela altera a rotina. Uma automação só representa avanço se a informação chegar a quem decide, no momento necessário, com uma regra compreensível para quem executa.
Um caminho concreto antes de desenvolver
Comece por uma decisão que hoje exige conciliação manual. Pode ser a aprovação de um pagamento, a leitura da margem de um contrato ou a identificação de entregas atrasadas. Delimitar uma decisão específica torna o trabalho verificável.
- Desenhe o fluxo real. Registre o que acontece desde a origem do dado até a decisão. Inclua exceções e controles paralelos. Pergunte por que as pessoas recorrem à planilha: falta uma informação no sistema, falta confiança nela ou falta uma regra de decisão?
- Defina os conceitos. Faturamento, recebimento e resultado são indicadores diferentes. O mesmo vale para venda contratada e receita reconhecida, tarefa concluída e entrega aprovada. Escreva as definições, as fontes e o momento de atualização de cada campo.
- Atribua responsáveis. Cada etapa precisa ter alguém autorizado a registrar, validar, corrigir e aprovar. Permissões e trilhas de alteração ajudam a preservar a rastreabilidade. Também é necessário definir quem mantém a solução quando o processo ou a regra de negócio muda.
- Teste com casos reais. A equipe deve experimentar a solução com operações normais e exceções. Observe se ela reduz a necessidade de copiar dados, se apresenta divergências no momento adequado e se entrega informação suficiente para a decisão proposta.
- Acompanhe o uso depois da implantação. Uma solução utilizada na primeira semana pode ser abandonada no terceiro mês. Verifique frequência de uso, qualidade dos registros, tempo gasto em conferências e quantidade de controles paralelos que permaneceram. Esses sinais mostram onde o desenho precisa melhorar.
A conclusão de gestão
O valor do low code integrado ao ERP depende de regras de negócio bem definidas, dados consistentes entre as áreas e responsáveis claros por cada etapa do fluxo. Essa estrutura cria condições para automatizar controles e acompanhar indicadores com rastreabilidade. Sem ela, a empresa apenas troca a planilha por uma interface mais bonita.
A pergunta que abre uma conversa produtiva sobre transformação digital é concreta: qual decisão relevante na sua empresa ainda depende de alguém reconciliar dados manualmente antes que a liderança possa confiar neles? A resposta indica um bom ponto de partida para revisar o processo e testar uma solução.
A Selos Consultoria apoia empresas no diagnóstico, na estratégia de integração e no acompanhamento da implantação de ERP e soluções low code. Se essa distância entre o sistema e a rotina também aparece na sua empresa, entre em contato para examinar o fluxo que precisa ser reorganizado e envolver as equipes certas na solução.
Sobre este artigo
Este texto foi desenvolvido a partir do estudo de Andréa Antinoro, Low code aplicado no planejamento de recursos empresariais: uma análise de sua contribuição para sistemas ERP, inovação organizacional e transformação digital das organizações (MUST University, julho de 2026).